A peça “Macário”, considerada obra-prima de Álvares de Azevedo, conta a história de um jovem que viaja à cidade a estudos e, em uma de suas paradas pelo caminho, faz amizade com um estranho que, ao final do primeiro episódio, revela se tratar do próprio Satã. Dividida em dois episódios, ao final da leitura, ainda não sabemos como classificar o gênero literário a que pertence: “drama, comédia, dialogismo?” – citando as próprias denominações que o autor sugere no prólogo.
O primeiro episódio tende para uma classificação mais aliada ao drama (pela relação que se estabelece entre as personagens) e à comédia (pela ironia e sarcasmo presentes no diálogo). Nessa primeira parte, temos um longo diálogo entre Satã e Macário, em que eles discorrem sobre os conflitos da adolescência: amor, virgindade, mulheres, bebidas...
Já o segundo episódio apresenta-se em um formato completamente distinto do primeiro. Surgem novos personagens, todos estudantes – alguns com uma única fala –, confusos, deprimidos e em busca do “amor puro e virginal”. Penseroso é um desses estudantes, e suas falas contribuem para classificar a segunda parte da peça mais como “dialogismo” do que como “drama”, pois praticamente não vemos mais a ação ou relação entre as personagens, apenas uma exposição de ideias e debate de conceitos entre Penseroso e Macário.
Ao final da peça, Penseroso se mata, contrariando todas as expectativas iniciais, pois, se levamos em consideração os discursos proferidos ao longo do segundo episódio, o personagem que tenderia “naturalmente” ao suicídio seria Macário – pela sua visão pessimista de mundo e pelo comportamento extremista. Porém, Penseroso não se mata por uma questão de conceitos ou ideais: ele se mata por amor, ou, para ser mais exata, pela ausência deste.
E isso caracteriza o personagem romântico por excelência: “É preferível morrer por amor que viver sem ele”.
Há muitas semelhanças entre o personagem Macário e o próprio Álvares de Azevedo – a mesma idade (cerca de 20 anos), as mesmas ideias sobre o amor, o mesmo temperamento extremista, próprio dos românticos.
Álvares de Azevedo impressionou a todos nós, pela densidade de suas obras, apesar da pouca idade. Esse desejo adolescente, os impulsos e angústias próprios da juventude, o extremismo presente nos pensamentos e nas atitudes. Citando Machado de Assis, em sua crítica à “Lira dos Vinte Anos” – outra importante obra do nosso autor romântico –, “só lhe faltou o tempo (...). Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias”, querendo dizer que sua obra, embora grandiosa, é fruto das impressões da juventude, e que ainda passaria por um longo processo de amadurecimento.
Observação esta que não desmerece sua obra nem suas qualidades de autor – muito pelo contrário – afinal, em qual outro autor brasileiro podemos ver retratados esses anseios e essas paixões de forma tão dilacerada e sem censuras – e tão deliciosamente – como em Álvares de Azevedo?
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